Weverton Julião - Olhar Jurídico “Precisamos debater o Brasil real e deixar o país do faz de conta”, diz advogado Weverton Julião em artigo

“Precisamos debater o Brasil real e deixar o país do faz de conta”, diz advogado Weverton Julião em artigo


Vivemos num período em que se evidencia o racismo estrutural existente em diversos países, causado pela morte de George Floyd, um afro-americano que morreu em 25 de maio de 2020, depois que Derek Chauvin, um policial branco, o sufocou pressionando o joelho em seu pescoço, após a vítima supostamente fazer um pagamento com uma nota falsificada de 20 dólares, causando diversos protestos que já duram vários dias naquele pais.

O Brasil apresenta sua própria tragédia, que traz o debate racial para o solo brasileiro.

A morte do menino Miguel Otávio Santana da Silva (05 anos) na última terça-feira (02), que caiu do 9ª andar (35 metros de altura) de um prédio de alto luxo em Recife, mostra que temos um verdadeiro apartheid social no Brasil, um muro imaginário que separa nosso povo, brancos de negros, ricos de pobres, políticos do povo.

O cenário da tragédia é devastador. Enquanto a mãe de Miguel, Sra. Mirtes Renata, empregada doméstica, andava com os cachorros da madame, Sra. Sari Corte Real, o filho ficou no prédio e chorou pela ausência da mãe. A patroa, que fazia as unhas em seu apartamento, talvez não suportando o choro da criança, o acompanha até o elevador, aperta o botão e deixa a criança à própria sorte. O menino desce no 9º andar sozinho, sobe numa grade de proteção, se desequilibra e cai.

Para escancarar ainda mais o flagelo brasileiro, o Jornal do Comércio divulgou que a mãe do menino, Sra. Mirtes, consta como funcionária da prefeitura de Tamandaré/PE, cidade comandada por Sérgio Hacker, patrão de Mirtes, que supostamente utiliza da Prefeitura para pagar os salários de sua empregada doméstica.

A patroa chegou a ser presa em flagrante, mas pagou R$ 20 mil de fiança e responderá em liberdade. Ela foi autuada por homicídio culposo, quando não há intenção de matar.

Cabe a polícia investigar os fatos e concluir se foi homicídio culposo ou se ela agiu com dolo eventual, assumindo o risco de acontecer algo grave com o menino quando o deixou sozinho e apertou o botão para o elevador subir ao último andar. Após isso, caberá a Justiça decidir.

O drama mostra bem a tragédia brasileira. Um casal branco, de classe alta, morando num edifício que foi alvo de disputa judicial por estar encravado em local tombado pelo patrimônio histórico. O patrão é prefeito de Tamandaré/PE, membro de uma família que se sucede no poder municipal há décadas. Enquanto isso, mãe e filho são negros, pobres, moram em comunidade, ela é doméstica e ele apenas queria viver como uma criança.

Precisamos debater o Brasil real e deixar o país do “faz de conta”. Nosso país tem um DNA escravista. Durante mais de 300 anos, o trabalho escravo permaneceu como base da sociedade brasileira. Essa é uma triste realidade que 132 anos desde a “abolição” não foram capazes de superar.

Negros representam 67% das prisões e 75% entre os mais pobres. Entretanto, no estrato dos 10% com maior rendimento per capita, os brancos representavam 70,6%, enquanto os negros são 27,7%. Entre os 10% de menor rendimento, isso se inverte: 75,2% são negros, e 23,7%, brancos. Em 2019, os cargos gerenciais eram 68,6% ocupados por brancos, contra 29,9% dos negros.

Esses são apenas alguns dados que mostram a real diferença existente no Brasil.

Precisamos nos conscientizar dessas diferenças, entendendo que temos sim uma dívida histórica, lutando pela igualdade real, de oportunidades, de trabalho e de estudos. Só a persistência de nosso povo poderá apagar a mancha histórica da escravização e transformar o Brasil num país menos desigual.

Por Weverton Julião

Bruno Muniz 05 jun 2020 - 15:33m

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